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José Martins da Silva Júnior teve uma infância simples em Gurupi, cidade onde viveu até a adolescência, hoje estado do Tocantins. Ainda menino, por volta dos oito anos de idade, escondido do pai, vendia picolé e ia para porta do cinema para passar para frente seus gibis e fazer algum dinheiro com eles. O objetivo não era ajudar a família e sim ter seu próprio dinheirinho para satisfazer as vontades da infância.

A situação poderia se configurar como trabalho infantil. Em 2006, após ter atuado com o Estatuto da Criança e do Adolescente, José Martins acredita que ter vendido picolé e gibi não foi exploração do trabalho infantil, e sim um aprendizado pelo qual as crianças devem passar: ter suas próprias responsabilidades, ir em busca de seus ideais. Sem que haja um adulto por trás para explorar e exigir retorno.

Olha que José Martins entende bem do assunto. Antes mesmo de se formar em Direito pela Universidade Católica de Goiás, em 1991, já trabalhava em uma fundação ligada à secretaria da Cidadania. Nascido em Goiânia, após viver toda a infância em Palmas, voltou para cá com os irmãos para fazer cursinho e faculdade. Pensava em seguir Medicina. Mas prestou vestibular para Direito, passou, e viu no curso uma oportunidade de realizar ações sociais, da mesma forma que poderia fazer se fosse médico.

Começou com datilógrafo, mas foi logo ocupando seu espaço no serviço público e, ao se formar, assumiu o cargo de advogado da referida fundação. Quando a instituição foi incorporada à administração direta, José Martins passou a prestar serviço no Centro de Triagem Integrada, iniciando contato com adolescentes em situação de rua. Posteriormente, recém-formado, atuando na Fundação Centro-Brasileira para Infância e Juventude (FCBA), foi convidado pelo procurador do Ministério Público, Joel Santana, para ajudar na consolidação dos Conselhos Tutelares. Foi José Martins quem criou os regimentos internos e os modelos de documentação do Conselho de Goiânia.

O trabalho não se resumiu à documentação. Ele viajou todo o Estado – Contabiliza mais de 100 munícipios – realizando palestras sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente(ECA) e falando sobre a necessidade e a forma de se criar conselhos tutelares em cada cidade. Depois disso, José Martins passou prestar serviços na área que ajudou a criar: foi conselheiro tutela, em Goiânia, por cinco anos. Chegou até mesmo a receber um convite da Organização das Nações Unidas (ONU) para escrever um manual sobre conselhos tutelares, mais desistiu por ver que demandaria muito tempo.

O advogado avalia esta fase da vida com saudade. “O engrazado é que eu nasci no Dia das Crianças, parece que sempre tive um compromisso muito forte com a questão infância e da adolescência”, conta. Mas começou a advogar enquanto era conselheiro e a profissão foi tomando-lhe o tempo. Aí decidiu dedicar-se apenas ao escritório. Era o ano de 1998.

Dedicou-se, principalmente, no Direito Civil e ao Penal. Na época, já possuía especializações em Penal, Processual Penal, Civil, Processual Civil, Administrativo, Constitucional, Previdenciário e Português, pela Católica, Anhanguera e Academia de Policia Militar.

José Martins advogou em casos de destaque, como algumas ações de erro médico, defendendo sempre o paciente, e atuação ao lado de clubes de futebol. Paixão, aliás, que ele carrega fora do escritório: Já ganhou vários títulos como jogador de futebol soçaite e em 2006 divide o hobby da bola com o de produtor rural. Faz parte também da comissão de Cultura, Esporte e Lazer da OAB.

Ele também atua no conturbado (e complicado) caso Avestruz Master: é advogado dos 200 funcionários da empresa que deve milhões de reais a seus clientes em todo o país. “Os trabalhadores vão receber, são créditos privilegiados”, comenta.

Sobre seus clientes, José Martins ressalta: a maioria é formada por pessoas de poucas posses. Talvez isso venha da vontade que o advogado tem de atuar na questão social. “Acredito que minha profissão é uma forma de melhorar o mundo. Mas não creio no discurso vazio, que muita gente tem, de que as coisas mudam sem que a mudança comece em nós mesmo”, filosofia.